Caro Amigo Fernando Jorge
Não lhe tiro a razão do brio e da emoção nas suas escritas. A enfase dada por cada na escrita está diretamente ligada as emoções incontidas, por vezes, quando a razão longe dos fatos se apresenta.
Ninguém contesta a brilhante contribuição de Amilcar Cabral pela independência da Guiné e Cabo Verde. Ninguém pode afirmar que Amilcar Cabral não foi companheiro da primeira hora na Luta de Libertação nas matas da Guiné. Mas há-de se convir que não foi Amilcar Cabral que fez a guerra na mata e muito menos atribuir a ele sozinho como ator único na montagem de estratégias e operações de guerra durante a Luta Armada. A suas afirmações categóricas, não sabendo donde se originaram, de que Amilcar Cabral é sangue do nosso sangue e carne da nossa carne e que se não fosse ele a Guiné não seria o que é hoje é forte demais para ser levada a sério. Isso é uma afronta aos grandes Comandantes como Umaro Djaló, Paulo Coreia, Lúcio Soares, Manuel Nandigna, Fore na Bitna, André Gomes, Manuel Saturnino da Costa, Abdulai Barry, Nino Vieira, Bana Cabra, Joaquim Montan Biagué, Gazela, Osvaldo Vieira, Chico Té, Quemo Mané, Domingos Ramos, Rui Djassi e tantos outros que não frisei por me falhar a memória. Se não fosse Amilcar Cabral a Guiné não seria a Guiné-Bissau de hoje, posso até concordar contigo, mas não quero colocar em causa a memória e os feitos deste grande homem que deve a Guiné e que a Guiné agradece e honra como os demais filhos desta terra que morreram anonimamente nas prisões da PIDE e nas matas da Guiné.
Porquê minimizar os trabalhos de Rafael Barbosa, João Rosa, Duarte Nbana, Vitor Pinhel, Vermon de Sousa (Tatá), Domingos Badinca, José Carlos Schewarz, José Lacerda, Carlos Correia, Cruz Pinto, Vasco Cabral, Fidelis Cabral de Almada, Isidoro Ramos, Pinto Bull, Carlos Domingos Gomes, João Vaz, Cesário Carvalho de Alvarenga, família Turpin e muitos outros que não chamo os nomes, mas que um dia a verdadeira história da Guiné fará justiça. Onde se coloca o atual Presidente da República que deu a sua contribuição na Luta Armada. Meu amigo, em que pese o seu conhecimento literário e sua capacidade de análise dos fatos, você está fazendo injustiça a Guiné e seus filhos que não passaram pelos rabiscos da história do PAIGC, pós independência. O senhor carece uma leitura mais apurada sobre a história da Guiné contemporânea. Por favor não deixe de ler as anotações do Dr. Leopoldo Amado sobre a Embriologia da Luta de Libertação na Guiné. Não é esse o titulo correto, mas trata-se disso. Leia René Pelissier para constatar sobre a história da Guiné pré e pós colonial. o INEP tem trabalhos dignos de nota. Eu não estou questionando a sua capacidade de narações a sua maneira de ver e de entender, estou questionando as falácias nelas incontidas pelos excessos de emoções. Na África o que manda é a tradição oral, portanto, ainda há quem possa conversar contigo sobre a história da luta e de mobilizações na Guiné. Corra antes que Deus os leve como tantos outros que já se foram.
Meu irmão, espero que reflita bem sobre o assunto abordado e sobre as minhas ponderações. Tenho lido com bastante interesse outros artigos anteriores seus, mas quanto a este há controvérsias.
Nha Mantenhas
Mamadu Lamarana Bari
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